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Bem  verdadeiro  e  muito  interessante  esse  texto do  dr. Isaac Asimov (1920–1992), escritor russo, de ficção científica, servindo de inspiração para outros  importantes  escritores. Suas  obras  são  caracterizadas  pela linguagem simples e seu modo pitoresco de contar um boa estória, presentes na maioria de seus contos e seu senso de humor também pode ser visto em todas as suas obras. Entre centenas de outros títulos, escreveu em 1950 o livro Eu, Robô. Para quem não sabe, esse livro foi a base do filme que leva o mesmo nome, cujo ator principal é Will Smith.

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Afinal, o que é inteligência?

 

“Quando eu estava no exército, tive que fazer um tipo de teste de aptidão que todos os soldados eram obrigados a fazer. Enquanto a média era 100, consegui 160 pontos. Ninguém havia visto uma nota como aquela e, por duas horas, fizeram de mim o principal assunto da base.

(Não significou nada. No dia seguinte meu cargo continuou sendo de soldado da KP – Kitchen Police).

Durante toda minha vida consegui notas como aquela, o que sempre me fez acreditar ser realmente muito inteligente e esperar que as pessoas pensassem o mesmo de mim. No entanto, será que essas notas não significam simplesmente que eu sou muito bom para responder tipos específicos de perguntas acadêmicas, consideradas relevantes por pessoas que formularam os testes de inteligência – as quais provavelmente têm uma intelectualidade similar à minha?

Por exemplo, eu conhecia um mecânico que, segundo minha estimativa, dificilmente tiraria nota acima de 80 em um teste de inteligência como esse. Por esse motivo, sempre me considerei muito mais inteligente do que ele. Mesmo assim, quando acontecia algum problema em meu carro ele sempre era a pessoa que eu ansiosamente procurava para resolvê-lo. Eu ficava observando-o enquanto investigava o que havia de errado e fazia pronunciamentos como se fossem divinos oráculos. No final, ele sempre conseguia consertar o veículo.

Então, vamos supor que as questões do teste de inteligência fossem concebidas pelo meu mecânico. Ou simplesmente elaboradas por um carpinteiro, um fazendeiro, ou qualquer outra pessoa que não seja da academia. Em qualquer um desses testes eu provaria que sou um completo ignorante. Em um mundo onde eu não poderia utilizar meu treinamento acadêmico e talentos verbais, mas sim tivesse que fazer algo complicado ou cansativo, com minhas mãos, eu me sairia muito mal. Portanto minha inteligência não é um princípio absoluto, mas sim algo imposto por um pequeno grupo (uma subseção) da sociedade em que vivo, que prevaleceu sobre os demais de forma arbitrária.

Vamos considerar meu mecânico novamente. Ele tinha o hábito de contar piadas sempre que me encontrava. Uma vez ele levantou o rosto sobre o capô de meu carro e disse: “Doutor, um surdo-mudo entrou em uma loja de construção e queria comprar pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego e com a outra mão imitou algumas marteladas no ar. Ao ver isso, o balconista trouxe um martelo. Ele balançou a cabeça e apontou para os dedos no balcão. O balconista trouxe então diversos pregos, ele escolheu o que queria e depois deixou a loja . Já o próximo cliente que entrou na loja era cego e queria uma tesoura. Como o senhor acha que ele pediu?”

Na mesma hora levantei minha mão direita e fiz gestos de “cortar o ar” com dois dedos. A partir disso meu mecânico começou a gargalhar e depois completou: “Mas o senhor é muito burro mesmo. Ele só usou a voz e pediu a tesoura.”.

De maneira ligeiramente presunçosa ele me contou que havia feito aquela piada o dia todo. “Muitos clientes caíram?” perguntei. Foi então que ele disse: “Alguns, mas eu tinha certeza que o senhor ia cair”. “Por quê?” perguntei novamente. “Porque o doutor tem muito estudo, eu sabia que não era muito esperto.” disse ele.

E eu tenho uma inquieta sensação de que ele tem razão nesse ponto.”

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